Bruno Neves: "ser um artista é mergulhar profundamente dentro de si mesmo..."


Esse mês a DOMI Galeria de Arte Online teve o imenso prazer de conversar e conhecer um pouco mais o paulistano e autodidata Bruno Neves, que tem uma relação apaixonada e visceral com a Arte.

Com estilo notoriamente essencialista e minimalista, permeando entre conceitos polarizados de técnicas e estéticas, o jovem artista mergulha nas profundezas de si mesmo em busca da simplificação e purificação das formas e das cores para expressar tudo aquilo que necessita. Confira abaixo como foi nossa conversa…

Quem é Bruno Neves? Como vc próprio se definiria para as pessoas que ainda não o conhecem?

Diria que é alguém que observa mais do que fala. Diria também que se trata de uma pessoa que aprecia um bom whiskey, a companhia de grandes amigos e mestres, uma paisagem qualquer que lhe dê inspiração. Aprecia o tempo e a vida, e vive como uma pessoa comum.

Uma curiosidade boba ao meu respeito é que eu tento viver como o Affonso Reidy (arquiteto modernista) tinha imaginado que poderia ser a vida do povo do Rio de Janeiro: Vida, arte e trabalho conectados em um ambiente onde a natureza floresce junto com o ser humano.

O que é ser artista para vc?

Olhando pelo lado romântico, creio que ser um artista é como ser uma espécie de "santo", só que sem a santidade. É como carregar uma cruz, um fardo que pode ser pesado, porém, é bom.

De maneira mais objetiva, ser um artista consiste em se responsabilizar pela captura das minúcias da vida e do pensamento presente e passado, através da recodificação de imagens, movimentos e sons.

Acima de tudo, ser um artista é mergulhar profundamente dentro de si mesmo, de sua vida, e exteriorizar isso mesmo que dentro dos seus limites.

Como e quando a Arte entrou em sua vida?

Já tinha um certo fascínio pelo mundo das artes desde criança, fazia desenhos e gostava demais das aulinhas de educação artística. Lembro que fui numa excursão da escola ao MASP, acho que tinha uns 11 anos, foi um passeio marcante.

Essa visão apareceu de maneira mais clara quando conheci a artista Mônica Nador, e tive então a oportunidade de conviver com ela no JAMAC – Jardim Miriam Arte Clube, além de ser o lar dela é o Centro Cultural onde desenvolve o seu trabalho e realiza suas oficinas.

Nos conte um pouco sobre o seu trabalho artístico neste momento de sua vida?

Meu trabalho está caminhando com naturalidade para a escultura, mas também na mescla de distintos materiais ainda na pintura. Por hora, sigo na pintura mesmo onde venho buscando decantar algumas pesquisas já em curso. Na prática, venho usando muito a expressão da pincelada para explorar as possibilidades dentro das delimitações que emprego com antecedência através das linhas.

Cada trabalho é como um capítulo de vida, é um projeto que no decorrer da produção, vou percebendo novas possibilidades, ora possíveis dentro daquele e ora guardados para uma próxima. Às vezes, o resultado de um trabalho pode ser tão surpreendente para os outros quanto pra mim.

Como foi sua jornada para chegar até aqui? Quais foram ou ainda são seus grandes desafios para trabalhar e viver da Arte?

Minha vida é uma corda bamba entre compromissos do cotidiano e o fazer arte, a produção, às vezes e por acaso, fica misturado como deve ser. Por isso, procuro ter um pouco de disciplina, estudos e muito compromisso com a missão.

O maior desafio neste momento é dar conta de tudo e custear todo o processo.

Nos fale sobre seus mestres, suas influências e inspirações

São muitos! Procuro me manter como um aprendiz eterno de todos aqueles que podem me tornar melhor como pessoa e artista. Pretendo continuar assim até a minha morte.

No campo da arte visual do Brasil cito prontamente: Volpi, Ianelli, Amilcar, Ranchinho, Pancetti, Tomie, Abraham Palatnik, Waldemar Cordeiro, Sacilotto, Peticov, Ligia Clark, a própria Mônica Nador, Paulo Pasta, Portinari, Bonadei, Mira Schendel... Fora do país cito: Turner, Munch, Ellsworth Kelly, Newman, Donald Judd, Richard Serra, Robert Motherwell, Mathias Goeritz...

Em outras áreas: Paulo Mendes da Rocha, Affonso Reidy, Aristóteles, John Coltrane, Bill Evans, Dave Brubeck, João Gilberto, Tom Jobim, Renato Russo, Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Adler, meus avôs... Provavelmente eu esqueci de alguém.

No mundo de hoje, com tantas possibilidades que a Internet e as redes oferecem, você pode – E deve – absorver informações relevantes e usufruir daquilo que as grandes pessoas deixaram e continuam deixando como legado.

Que sugestões vc daria para alguém que está apenas começando no mundo das Artes? Ou o que vc gostaria que alguém com mais experiência tivesse lhe dito quando era mais jovem?

Para quem está no início da jornada, eu diria: – Continue trabalhando e se aprofundando naquilo que está fazendo, mantenha sempre ativa a sua curiosidade, viva a sua arte e seja capaz de assumir a responsabilidade desse ofício, dessa missão. Não espere nada por isso, apenas seja você mesmo e faça o que tem que fazer e o que quer fazer.

Recomendo que seja menos teórico e se suje mais! Isso é muito Turner... Mas não deixe nunca de lado a teoria, saiba o que você está fazendo.

Quanto aos mais experientes, sobre o que deles poderiam vir até mim, eu não sei o que gostaria de ouvir. Eu ainda continuo ouvindo e procurando me manter atento, à espreita de ter a oportunidade de absorver mais e mais, o que puderem compartilhar comigo, sempre estarei pronto para receber e refletir, de peito aberto, de forma séria e profunda.

O ano ainda está começando e com ele sempre os novos projetos.. Nos conte um pouco mais sobre seus projetos, seus planos ou mesmo sonhos, para este ano e para o futuro

Programo para esse ano a continuidade da série ad aeternum de pinturas e consequentemente continuar explorando os temas que venho pesquisando. Também incluo neste a produção de pequenas "esculturas-pinturas", mesclando os dois meios e explorando, através de outros aspectos visuais, aquilo que já venho desenvolvendo, mas não quero falar muito sobre essa série agora... Provavelmente vamos apresentar aqui na Domi.

Surgiram alguns convites para expor fora do Brasil, estou analisando a situação e as oportunidades, pode ser que se realize algum projeto neste sentido. O tempo e as condições dirão.

Fora do trabalho, sigo na organização da montagem do meu ateliê, que futuramente desejo transformá-lo num espaço de cultura, algo que seja útil a sociedade, ao bairro onde vivo e trabalho. Vejo que o local carece demais de ações dessa natureza, carece de um local onde a arte floresça sem compromissos e mais próximo daquilo que existe fora. Um dos meus sonhos é justamente esse, tornar a minha casa um ponto de cultura e galeria, parecido com o que a Mônica Nador fez no Jardim Miriam, um bairro próximo ao meu e que precisava desse respiro.

Sinto que no Brasil a presença e o consumo das Artes ainda é muito pouco ramificada, percebo isso na cidade onde moro, São Paulo, uma megalópole; quanto mais distante do centro mais longe de museus, galerias, pontos de cultura e produção, intercâmbios internacionais e livrarias, mais distante até mesmo da valorização de tudo isso que é tão vital para a saúde humana. Diante dessa realidade, poderia incluir essa mudança de cenário também como um sonho, ou será uma Quimera? Quem sabe?!

Para conhecer mais o trabalho do artista, visite aqui.

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