Claudia Seber: "Mais do que mestres e influências específicas, as inspirações partem de uma..."


Arteterapeuta, designer de jóias e Terapeuta Ocupacional de formação, Claudia Seber atua há mais de 20 anos no ramo da joelheira autoral, tendo se dedicado simultaneamente à criação e produção de jóias, adornos e ao ensino técnico das mesmas.

As esculturas surgiram com a ideia de mesclar a técnica da joalheria e o refugo da produção de joias, a diversos e inusitados tipos de metais recolhidos aleatoriamente pelas ruas e caçambas da cidade de São Paulo. Uniram-se a essa lista, vidro, mármore, madeira, enfim todo e qualquer material utilizado na composição artística das esculturas. A prioridade é sempre o material de descarte. A inspiração para as composições surge da fusão entre a Alma da Matéria e a Alma Singular dotada de conceitos e simbologias comuns a todo o Universo Humano. O cerne da produção não é a reciclagem, mas a ressignificação do mundo material compondo-o estética e simbolicamente, através da Arte.

Tivemos a chance de conversar com essa artista incrível que nos controu mais sobre sua arte, seu processo criativo e sobre como tem sido passar por essa fase de pandemia. Confira abaixo..

Quem é CLAUDIA SEBER? Para aqueles que ainda não te conhecem, como você se descreveria, como é sua personalidade, seus gostos, etc?

Poderia começar dizendo o que não sou! Obediente, resignada, concreta, preguiçosa... Definir-me é algo custoso diante da multiplicidade de papéis que assumo como uma mulher de 52 anos. No entanto, em comum nos papéis de filha, de mãe, de amiga, de mulher, de cidadã e enfim, de artista, existe uma pessoa muito focada e arraigada nas próprias convicções. Convencer-me de algo é bastante custoso e diante da premissa de que tudo pode sempre ser melhor, sou muito exigente, antes de tudo, comigo mesma. Claro que isso vem também de minha educação, mas acredito que nossos encontros mais profundos e nosso autoconhecimento gerem consequências e uma delas é sem dúvida a nossa solitude muitas vezes confundida com isolamento e solidão.

Gosto de preservar meu espaço, minha individualidade, minha forma de viver a vida, minha bicicleta, minhas viagens de aventura, meus amigos, meu atelier, meu trabalho, enfim tudo a que me dedico com um sentimento e uma intenção exponenciados.

Nos conte um pouco sobre como a escultura entrou na sua vida ou como você entrou para a escultura

Crises superadas são sempre a melhor forma de despertarmos para novos caminhos e realidades. Em última instância, para um auto despertar. Ao olharmos para trás é fácil compormos nossa história e compreendermos nosso momento presente. Juntar e trabalhar com o refugo da joalheria de uma forma diferente e em uma dimensão bem maior do que a joia, ocorreu em paralelo a um período muito desafiador da minha vida.

Mais tarde e após minha pós graduação em arteterapia compreendi que minha insatisfação também profissional tinha sido reciclada e ressignificada não só pelo uso que dei ao “resto” do material da joalheria, mas igualmente ao novo trabalho que surgia a minha frente. Incorporar novos materiais às esculturas foi apenas uma questão de tempo, conservando sempre a premissa do descarte e da ressignificação. Pessoal e profissionalmente ressignificar passou a ser o cerne das minhas produções. A alquimia da transformação da arte surge quando adicionamos intenção e afeto ao mundo material disponível ao nosso redor.

O que é escultura para você?

Em 1994 fiz uma viagem ao Nepal, mais especificamente ao Campo Base 1 do Everest. As pequenas vilas de moradores, encravadas nas inóspitas e deslumbrantes montanhas, eram um misto de cores, cheiros, movimentos e vida. As bandeiras de oração budistas estavam por todos os lados e inesperadamente cruzávamos por elas nos lugares mais distantes e inesperados. A imagem do vento as balançando e espalhando suas bênçãos aos quatro cantos do mundo responde a sua pergunta.

O que é a escultura para mim? A brisa mais doce e suave que poderia passar pela minha vida. O meu combustível. A minha essência. A minha razão de estar hoje aqui. Percorri muitos caminhos e invariavelmente todos eles, tortuosos ou não, convergiriam para me tornar a pessoa e profissional que sou hoje.

Por que você escolheu a escultura como forma de se expressar? Fale um pouco sobre seus mestres, suas influencias e inspirações

A escultura exige conhecimento e rigor técnico na composição de materiais muito divergentes entre si. Poderia dizer que uso a técnica de assemblage, mas não me contento com as fixações simples, com as bases prontas, com o caminho fácil. Há nelas um misto da técnica da joalheria, da metalurgia, do trabalho com vidros, madeira, plástico, dentre outros.

Em meados dos anos 90 trabalhei com um engenheiro em uma oficina de adaptações para portadores de deficiências físicas e diria que esses anos foram uma imersão no mundo do conhecimento técnico, de máquinas, ferramentas, materiais, enfim da concepção e concretização de produtos. Incorporei a todo conhecimento técnico adquirido, emoção, ideia, conceitos, cores, movimento, mas acima de tudo intenção. E assim surgiram as esculturas, muitos e muitos anos mais tarde, numa dimensão bem diferente da joia.

Mais do que mestres e influências específicas, as inspirações partem de uma alquimia pessoal e do mundo circundante. Tudo inspira quando ressoa em nosso ser.

Mas posso dizer que tenho duas paixões. Leonardo da Vinci e Salvador Dali, mais especificamente suas pequenas e menos conhecidas joias em forma de esculturas.

Em que consiste seu trabalho hoje? Nos conte um pouco mais sobre suas esculturas afetivas ou sobre a relação do seu trabalho com a joalheria

Vim da joalheria no que diz respeito à técnica e a relação com os metais. Ainda hoje executo joias, mas não crio e produzo na escala que o fazia anteriormente. Adoro desafios e um deles é conseguir concretizar exatamente o que o cliente deseja, seja com o trabalho na bancada, fundição ou impressão 3D. Precisei ampliar e continuar estudando modos de produção.

Hoje atendo clientes de joias em meu atelier e paralelamente trabalho nas esculturas, não apenas na elaboração, mas na divulgação, estudo, participação em workshops de arte, palestras, exposições, enfim, na consolidação desta vertente de meu trabalho.

As esculturas afetivas surgiram com ideia de materializar e construir esculturas para terceiros. O cliente fornece os objetos e materiais importantes e significativos de sua vida, sua família e após uma longa conversa onde abordamos os gostos, história dos objetos, relação afetiva com eles, intenção com a escultura, dentre outros, eu apresento um projeto, uma ideia e uma vez aprovado, executo a escultura. Horas de conversa e histórias afetivas surgem durante esse processo. E o trabalho de mergulhar e compreender o desejo do cliente é um tanto desafiador.

Como a pandemia e a questão do isolamento social estão afetando seu processo criativo?

O processo criativo em si tem transcorrido na verdade sem alteração. Tudo pode nos inspirar e se partimos do princípio simples de que a vida, quaisquer que sejam seus desdobramentos, é a grande fonte de inspiração, com a pandemia em si não seria diferente. A inspiração está na RELAÇÃO e essa é a grande descoberta. Caso contrário perdemos muito tempo em coisas externas, em busca de modelos, de referências. Tudo pode nos bloquear. Mas tudo pode igualmente nos inspirar.

A pandemia foi um desafio na operacionalização das esculturas. Adaptei um pequeno atelier em minha lavanderia e me vi buscando formas diferentes de concretizar determinadas etapas. Furei materiais com ferro incandescido no fogão ao invés de broca, usei o varal para secar algumas pinturas, expus cimento ao sol... E esses sim foram os grandes desafios. Afinal, se minha premissa é de que A ARTE É FAZER DO NADA ALGUMA COISA, eu estava apenas fazendo a lição de casa!

Quais você diria que foram e ainda são os seus grandes desafios para trabalhar e viver da escultura?

Viver da escultura significa encará-la como um produto também comercializável. Estou mais focada nesse aspecto e com a pandemia houve uma parada nas exposições presenciais, circulação, etc. Mas abriram-se novas plataformas de marketplaces, galerias on-line, concursos de arte e tenho me dedicado a isso. Precisamos estar sempre circulando nosso trabalho e correndo atrás dos objetivos, qualquer que seja o ponto em que estejamos.

Outro aspecto muito importante de meu trabalho é o processo criativo em si. Como arteterapeuta, meu sonho é abrir o atelier para aulas, workshops e isso talvez tenha que ser postergado mais para o final do ano. Concretizá-lo, juntamente com a circulação e expansão das esculturas são os meus objetivos atuais.

Considerando sua trajetória profissional até o momento atual, quais você diria que são os atributos ou as caracter'sticas fundamentais que um artista precisa desenvolver em sua carreira?

Tendemos a encarar a arte apenas como inspiração...Muitos a veem assim. Determinação, foco, persistência, estudo, mas acima de tudo metas a serem atingidas e por quais caminhos seguir são fundamentais na construção e manutenção da nossa atuação profissional como artista. O processo de criação é estritamente pessoal, porém o produto em si, seja um quadro, uma escultura, um livro, um filme, se não divulgados e inseridos no mundo, funcionam como auto expressão. Se desejamos viver da arte, precisamos construir as condições e persistir. Persistir sempre.

Que conselhos você daria para alguém que está começando a dar os primeiros passos na escultura?

Escultura é algo muito amplo e sua definição clássica pressupõe estudo de volume, ocupação de espaço, técnica de modelagem, remoção de material, dentre outros. Como trabalho com Assemblage, ou seja, com a composição de diversos materiais, o primeiro ponto é descobrir e familiarizar-se com os materiais que evocam emoção e despertam vontades. Vontade de conhece-lo, de tocá-lo, de percebe-lo, de senti-lo. Algumas pessoas se paralisam diante do metal, do vidro, do fogo. Outros não gostam da sensação da argila fria e mole e por aí vai.

Descobrir o nosso canal de expressão é o primeiro ponto. A partir disso vem o conhecimento da técnica relativa ao material, o estudo, a dedicação, mas acima de tudo a prática constante.

Onde mais você quer chegar? Nos fale um pouco sobre seus planos, sonhos e projetos para o futuro

A referência para sonhar e tecer planos para o futuro baseiam-se no que vislumbramos como possibilidades e no que vemos ao nosso redor. Gostaria de passar por algumas experiências, como por exemplo participar de uma grande feira de Arte como a SP – ARTE, organizar uma exposição individual com minhas esculturas, ambientada de forma a expor os processos de produção, materiais utilizados e conceitos nelas envolvidos, ganhar um prêmio de Arte de alguma instituição de destaque e abrir um centro de Arte e Expressões Criativas. Por fim e o mais importante, persistir sempre.

“Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.” (Confúcio)

Conheça mais os trabalho da artista Claudia Seber aqui

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