Daniel Alves: "Teste, pesquise e aprenda o que puder sempre. Leia o que aparecer na sua frente..."





Esse mês a DOMI Galeria de Arte Online conversou com o jovem artista visual paulistano, Daniel Alves. Da família nordestina vem sua conexão com a xilogravura e com o bordado. Criado na favela, Daniel enxerga a religião popular como expressão artística, assim como a magia e o ocultismo, se tornam formas de discutir e falar sobre as questões sociais e coloniais do racionalismo. Seu trabalho, além de processo artístico, tem um processo mágico, o idealismo do design passa pelas técnicas tradicionais da gravura e se aliam a psicomagia, formas oraculares e conversas com o subconsciente. Cada obra é uma tradução de um desejo interno de mudança, uma vontade além dos desejos do cotidiano, uma Verdadeira Vontade.

Para aquelas pessoas que ainda não te conhecem, quem é Daniel Alves?

Sou designer e artista de São Paulo tenho 26 anos. Trabalho principalmente com a gravura e com o bordado, meus trabalhos navegam na área da magia, do ocultismo e da religiosidade popular.

Nos conte um pouco sobre como a Arte entrou em sua vida?

Pela minha formação já gostava bastante de arte. Frequentava exposições e estudava a história, mas sempre num lado passivo, de quem observa. Comecei a produzir depois de uma crise que tive em que deixei de ver sentido em viver, trabalhar, acordar e na realidade como um todo. Ao mesmo tempo, estava começando a estudar espiritualidade e a gravura apareceu como uma linguagem perfeita para traduzir o que eu sentia. Hoje vejo a arte como ferramenta para as minhas práticas mágicas.

Em que consiste o seu trabalho hoje?

Minha arte se tornou sacra. Meus trabalhos fazem parte de rituais, às vezes são o próprio ritual e têm objetivos diversos. Meu objetivo é sempre trazer o assunto da religiosidade popular como parte importante da cultura e da história, que frequentemente é esquecida em detrimento do secularismo, que vejo como uma higienização da cultura através de uma “verdade” colonial.

Por que escolheu a gravura como forma de se expressar? Fale um pouco sobre seus mestres, suas influências e inspirações

Desde pequeno tenho uma relação forte com o cordel, por ser de família nordestina. Meus avós vieram para São Paulo durante o êxodo rural dos anos 70, então fui criado aqui, mas vivi minha vida na favela de Paraisópolis até 2020 e assim como outras periferias da cidade a maioria dos moradores são nordestinos ou descendentes. Então tudo que remete ao nordeste sempre teve uma conexão forte em mim. Já experimentei outras formas de gravura, mas a xilo ainda é a que mais faz sentido comigo e a minha história. Para falar de gravura e mestres, é difícil não falar de Gilvan Samico que foi um ponto crítico na minha pesquisa. Já na magia sofro muita influência de Austin Osman Spare.

Sabemos que essa é uma pergunta muito difícil de responder, mas o que é Arte para você?

Frequentemente eu evito responder essa pergunta não vejo muita razão para responder. Saber o que é gastronomia ou não, não te impede de fazer um bom prato e nem de apreciar. Mas pelo exercício digo que é encanto. É a forma que passamos a valorizar para dar sentido a esse vazio que chamamos de vida, é uma linguagem que tangencia tudo na vida e passa a dar significados ao que jamais teria.

Nos conte um pouco sobre o seu processo de criação, como ele funciona e como você lida com ele?

É difícil dizer como as coisas funcionam, pois o ritual é que de fato define como vou trabalhar. Às vezes o rito vai gerar a imagem durante um transe, às vezes a imagem é definida por um estudo mais técnico dos símbolos, e o rito vem depois da obra pronta e às vezes as duas coisas se misturam.

Normalmente defino o tema, o estudo e a pesquisa antes, e desenvolvo um método mágico ao redor disso. A obra entra como ferramenta simbólica como uma arruda numa reza por exemplo, e às vezes entra como representação de algo maior como a efígie de uma deidade. De qualquer forma tento não me prender a um método só, preciso desta versatilidade e adaptabilidade para desenvolver minha linguagem.

Como foi seu caminho para chegar até aqui? Quais foram ou ainda são seus grandes desafios para trabalhar e viver da Arte aqui no Brasil?

Comecei criando sozinho, mas assim que pude comecei a fazer uma orientação artística para entender mais desse mundo e como me inserir. Foi um período interessante onde aprendi muito, ainda faço um acompanhamento em grupo e sinto que me ajuda bastante. Mas ainda há desafios, acho que são os de todo artista: se sentir uma barata na galeria, um ser indesejado e asqueroso, um invasor. O mundo da arte é cruel e não abre espaços tão fácil, ainda busco entrar no mercado da arte.

Quais você diria que são as características ou atributos mais importantes para se tornar um artista e fazer disso uma carreira?

Sinceramente não faço ideia não acredito que há qualquer coisa do tipo, cada artista vai ter sua jornada e é difícil atribuir similaridades. Acho que diria para ser extrovertido, parece funcionar para muitas pessoas, eu não consigo fazer isso, mas se conseguisse, as coisas seriam mais fáceis, acredito.

Que conselhos você daria para alguém que está apenas começando a dar os primeiros passos como artista?

Teste, pesquise e aprenda o que puder sempre. Leia o que aparecer na sua frente, estude principalmente sobre outros artistas contemporâneos e latinos e não esqueça de que nada é verdadeiro e tudo é permitido. Não há regras.

Nos conte um pouco mais sobre seus projetos, seus planos, sonhos. Onde mais você gostaria de chegar?

Tenho projetos de gravuras com tintas confeccionadas e consagradas por mim, um projeto expositivo e novas series com estudo de deidades e divinação. Quero chegar nos espaços mais urbanos e alternativos de exposição e se possível criar espaços. Por último deixo meu sonho de colocar uma penca de favelados no tapete vermelho do mundo da arte.

Conheça mais o trabalho do artista visitando aqui

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