Eduardo Morais: "a arte é uma forma de expressão com conteúdo aberto, passível de interpretações..."



Já ouviu falar no artista Eduardo Morais? Não sabe o que está perdendo! Ele é um jovem artista plástico autodidata natural de Brazlândia-DF, sobre quem todos nós ainda ouviremos falar muito! Seu trabalho dialoga constantemente com o conceito de "belo e bizarro", na medida em que frequentemente aborda temas relacionados ao abandono, desamparo, inevitabilidade do sofrimento, despropósito da vida e outras temáticas voltadas à dimensão subjetiva do que não se vê e do que não se mostra, ao passo que procura certa delicadeza e sutileza próprias a essas cenas. A palavra é um elemento essencial de sua produção e, portanto, os títulos desempenham um importante papel para a completude da obra, guiando o observador pela obra e permitindo que vislumbre a intenção do artista ao produzi-la, bem como permitindo ao observador criar sua própria interpretação sobre a imagem.

Confira abaixo a conversa que tivemos com ele essa semana...

Para aquelas pessoas que ainda não te conhecem, nos fale um pouco sobre você?


Meu nome é Eduardo Morais, tenho 22 anos, nasci e moro no Distrito Federal e sou artista plástico autodidata. Tenho muito interesse por todas as formas de arte (desde pintura e desenho, até música, passando pela literatura, poesia, teatro, dança, audiovisual, fotografia, escultura, etc.) e percebo que todas elas, de alguma forma, penetram e influenciam a minha personalidade e minha forma de produzir arte, e acho que boa parte do meu tempo livre é gasto consumindo todas essas formas de arte. Difícil falar sobre mim, ainda estou tentando me entender.

Como você diria que a Arte entrou em sua vida?


É difícil determinar um ponto de inflexão a partir do qual eu posso dizer com convicção que a arte entrou na minha vida, creio que tenha sido um processo lento e gradativo. Desde muito jovem eu cultivo o hábito de desenhar e isso nunca saiu da minha vida, embora, durante muitos anos, essa atividade tenha sido encarada por mim como nada além de um hobbie. Eu era muito fã de animações japonesas e costumava pausar os episódios em frames interessantes para copiar as imagens. Continuei desenvolvendo esse estilo ao longo da infância e da adolescência, até que tive contato com uma história em quadrinhos chamada "The Sandman", de Neil Gaiman (que recentemente ganhou uma série na Netflix).


A leitura dessa obra me despertou um grande interesse pelas artes em geral e pela filosofia, visto que lida com diversas questões existenciais de uma forma muito poética e contemplativa, dialoga com obras de Shakespeare, além de possuir uma estilística literária muito autêntica. Depois disso, passei a incorporar elementos mais pessoais e melancólicos nas minhas produções, comecei a estudar mais pormenorizadamente a anatomia artística e desenvolver uma poética própria.


Apesar disso, nessa época ainda percebia a arte apenas como uma atividade de lazer, e afastava completamente a hipótese de fazer disso minha profissão. Foi só em 2020, no começo da pandemia, que eu decidi aceitar a arte como carreira. Acompanhando todas as tragédias que estavam acontecendo a nível nacional e global, a nível pessoal, para mim, a situação era também muito trágica e acabei encontrando na arte um espaço seguro para me expressar e comunicar minhas frustrações para o mundo.

Apesar de ser uma questão extremamente subjetiva, gostaríamos de saber o que significa Arte para você?


Eu sinceramente acho que essa pergunta não tem resposta, e precisa permanecer assim. Ao que me parece, todas as tentativas de estabelecer uma definição estanque, geral e abstrata da arte falharam e continuarão falhando justamente porque a arte é fluida, dinâmica, indefinível. Muitas correntes artísticas possuem o objetivo inclusive de desafiar os limites da arte e questionar o que é ou não realmente uma obra de arte.

O máximo que seria honesto a se fazer é estipular algumas características que parecem serem presentes a todas as obras de arte, entre as quais o fato de se tratar de uma linguagem. Isto é, a arte é uma forma de expressão com conteúdo aberto, passível de interpretações infinitas e onde o que o interlocutor recebe nem sempre condiz com o que o artista disse ou quis dizer (e é de se esperar que não seja, realmente).


Além disso, um elemento que me parece essencial à arte é a sua inutilidade. Aqui, refiro-me ao prefácio do livro "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, em que o autor rebate os críticos da primeira edição de seu livro, que diziam que o livro era inútil e repleto de frivolidades. Nessa oportunidade, Wilde diz que "Podemos perdoar um homem por fazer alguma coisa útil, desde que ele não a admire. A única desculpa para fazer alguma coisa inútil é poder admirá-la intensamente. Toda arte é completamente inútil." Isto é, toda arte deve ser feita com o intuito de que seja, nos termos de Wilde, admirada intensamente. O que diferencia uma obra literária de Clarice Lispector de um artigo acadêmico é a sua capacidade de ser admirada intensamente, assim como o que diferencia um quadro meu de um pedido de ajuda é que o faço de maneira artística, ou seja, com o intuito de que quem o veja admire-o intensamente.

Sabemos que o artista passa por diversas fases ao longo da vida, mas como você descreveria o seu trabalho artístico hoje?


Eu tento colher referências de muitos campos diferentes na arte e por isso tenho dificuldade em definir um estilo específico para minha produção. Atualmente, tenho me debruçado sobre a tentativa de expressar ideias complexas por meio da expressão corporal. Por muito tempo pensei que só por meio do uso de metáforas eu seria capaz de contar uma história ou explicar uma situação existencial – e, por isso, tenho incorporado diversos elementos surrealistas ao meu trabalho –, mas percebi que poucas coisas são tão eloquentes quando se trata de explicar o que alguém está sentindo quanto um olhar. Nossos rostos e nossos corpos são retratos do que sentimos, ainda que tentemos esconder e, por isso, tenho buscado muitas referências na fotografia artística e no audiovisual. Hoje, percebo que meu trabalho artístico tenta explicar o inexplicável com olhares e, ocasionalmente, com palavras.

Nos conte um pouco sobre o seu processo de criação, como ele acontece e como você lida com ele.


Poucas coisas são constantes no meu processo criativo, mas uma delas é que eu quase, quase sempre começo com um título. Minhas obras são, em grande medida, descritivas (mas de um sentimento, de um pensamento, raramente de um objeto), e descrever exatamente o que eu estou sentindo em dado momento é, para mim, a melhor forma de iniciar uma obra. É aquilo que vai me dizer qual paleta de cores usar, qual composição, quais referências, qual atmosfera, qual tamanho da tela eu vou buscar utilizar. Tenho um bloco de notas onde anoto todas as minhas ideias, para retornar a elas mais tarde, quando tiver mais tempo de desenvolver aquele rascunho de ideia. Uma vez que tudo isso está resolvido, eu faço o processo de preparação da tela, que frequentemente envolve o recorte de diversos pedaços mais ou menos irregulares e aleatórios de papel de diversas gramaturas e a colagem desses papéis sobre a tela, seguidos de várias camadas de gesso acrílico e o estabelecimento de uma cor de fundo para a imagem. A grande maioria das decisões acerca da obra é tomada antes que o pincel encoste pela primeira vez na tela para que eu não me desespere e empaque no meio da pintura. Às vezes, nem isso dá certo.

Fale um pouco sobre seus mestres, suas influências e inspirações


Como já mencionei, minhas referências estão por todo lugar. Uma das minhas maiores fontes de inspiração é a poesia. Já perdi as contas de quantas pinturas minhas foram concebidas a partir de um verso de alguma música que me tocou em algum momento. O mesmo ocorre com a literatura. Atualmente estou trabalhando em uma série de vinte e três pinturas e, em muitas delas, fiz recortes de trechos de livros e colei em locais estratégicos nas telas, então dentro das pinturas poderemos encontrar trechos de "O pequeno príncipe", "O mito de Sísifo", além referências a produções audiovisuais como o filme "Retrato de uma jovem em chamas", etc.

Nas artes visuais, minhas influências também estão por todo lugar. Nutro profunda admiração por artistas brasileiros ainda vivos como Susano Correia, Paulo Abreu, Brendon Reis: creio que todos eles possuem muito a ensinar sobre como traduzir sentimentos em imagens e sobre a construção de uma identidade poética que fale de si, mas também fale do recorte social de que pertence o artista. Minhas maiores referências são artistas vivos, sejam eles emergentes ou já estabelecidos no mercado, brasileiros ou estrangeiros. Mas valorizo sobretudo a obra do meu tempo, que fala sobre angústias que eu compreendo, que converse comigo.

Duas das minhas maiores referências atualmente são Dave McKean e Øyvind Lauvdahl. O primeiro é um artista multidisciplinar que trabalha com pintura, desenho, fotografia, escultura, poesia..., ou seja, tudo que eu quero trabalhar no futuro. Dave McKean mostra muito bem como cada obra de arte possui necessidades diferentes e o artista deve buscar atendê-las ao invés de moldar as ideias a um formato rígido e predeterminado. O segundo é um desenhista que produz principalmente "rabiscos" (doodles, em inglês, como ele chama), normalmente acompanhados de um texto que complementa, explica ou vai além da imagem. É uma das minhas maiores referências no que diz respeito à relação entre imagem e texto, entre a obra e o título.

Cada artista tem uma jornada única, como foi a sua? Quais foram ou ainda são seus grandes desafios para trabalhar e viver da Arte?


Como mencionei antes, a arte foi me ganhando aos poucos. Mesmo depois de ter decidido trabalhar com arte, demorou bastante tempo para colocar essa vontade em prática. É difícil fazer as pessoas ao nosso redor compreenderem que esse é nosso trabalho, que é nosso direito cobrar por ele e que provavelmente estamos cobrando muito menos do que o que ele realmente vale. Apresentar sua produção artística como profissional é difícil se você não tem acesso aos melhores materiais em artes (que são bastante caros) ou conhecides em galerias. E como cereja do bolo, raramente algum artista consegue obter o apoio da família desde o início, o que dificulta muito o processo. A maior dificuldade em ser artista creio que reside em conseguir estabelecer uma rede de apoio (emocional, financeiro) que tenha a paciência e a possibilidade material de dar aporte à carreira inicial do artista (que muitas vezes precisa ele mesmo ser o apoio da família).

Você ainda é bastante jovem, mas quais você diria que são as características ou atributos fundamentais para se abraçar uma carreira em Artes?


A busca pela originalidade é algo que eu valorizo muito em um artista. É claro que não se cria nada do nada, mas acho que se trata de identificar suas referências e incorporá-las à sua própria forma de operar. Desenvolver a própria voz é uma aptidão essencial porque você dificilmente será melhor do que a pessoa de quem está copiando, até mesmo porque ela faz aquilo há mais tempo.

Mas talvez o hábito mais poderoso de um artista seja o de consumir arte. Como acabei de dizer, não se produz nada do zero. Sem repertório, será difícil criar sem um ponto de partida, sem referências para resoluções de problemas que você encontrará pelo caminho. Não existe bom escritor que não lê, bom jogador que não torce para time algum.

Que sugestão que você daria para um jovem artista que está apenas começando a dar os primeiros passos no mundo das Artes?


Em primeiro lugar, tenha a consciência de que não se nasce sabendo de nada, e na maior parte das vezes se morre tendo aprendido muito pouco. É ingênuo esperar que sua técnica será sofisticada desde o início: trata-se de um processo. O sentimento de mediocridade, a síndrome de impostor, as comparações com outres artistas, tudo isso é mais do que esperado de qualquer pessoa que trabalha com criação. Mas não se trata aqui de superar esses sentimentos, mas de aprender a conviver com eles, porque, ao que me parece, eles não irão embora não importa quanto tempo passe. É importante não permitir que esses sentimentos nos impeçam de aprimorar nossas habilidades. Digamos, você nunca será um "bom" artista se desistir enquanto ainda é "medíocre".

Onde mais você quer chegar? Nos conte um pouco mais sobre seus projetos ou seus planos para o futuro.


Eu sou um grande admirador de arte urbana, até mesmo por isso entrei passei a produzir tatuagens além das pinturas. O suporte mais urbano que existe é o corpo: é ele que anda pela cidade e frequenta todos os lugares. Eu pretendo expandir as pinturas e a minha poesia também para as paredes, pretendo produzir murais e imprimir minha mensagem nos muros, nos postes e nos bancos de praça.


Além disso, estou trabalhando atualmente em uma série chamada "E por causa da vida se perdem as razões de viver". É uma série de vinte e três pequenas telas que falam sobre temas muito diversos, mas que possuem como fio condutor a pretensão de mostrar como nossa vida é mais marcada por pequenos momentos, falas efêmeras e olhares momentâneos do que por grandes eventos determinantes. A série fala sobre amizade, sobre a perda dela, sobre amor e o lento e gradativo afastamento, fala sobre vergonha, sobre memória, fala sobre superar, sobre tentar superar, e sobre falhar nessa tentativa. É meu maior projeto até o momento, e estou ansioso para mostrá-lo ao mundo para que possam compartilhar comigo essas angústias.

Para conhecer mais o trabalho do artista visite aqui



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