SANDRO EVANGELISTA: “Arte para mim é tornar conhecido o que é está oculto..."



Essa semana a DOMI Galeria de Arte Online conseguiu conversar com o artista Sandro Evangelista, que tem formação em engenharia e posterior atuação na área, de onde traz o prazer de trabalhar com elementos de máquinas e transformá-los em arte. De forma autodidata, seu processo de criação consiste na formação de imagens mentais de forma espontânea e, por fim, a criação física, a qual é quase sempre diferente do que foi planejado. Nas palavras do próprio artista... "Minhas obras de arte são criadas com materiais que possuem uma história, que já tiveram grande importância anterior no mundo. São madeiras provenientes de árvores que por décadas embelezaram as ruas da cidade e praças, porém envelheceram, ficaram frágeis e um dia caíram ou foram derrubadas por fortes ventos e tempestades."


Confira abaixo esse bate-papo tão gostoso que eles tiveram com esse artista incrível!



Sabemos que essa é uma pergunta muito difícil de responder, mas o que é Arte para você?


Arte para mim é tornar conhecido o que é está oculto, fazer uma transferência do mundo imaginal para o mundo material, é a materialização de um conteúdo que não tínhamos informação sobre ele até então. Estava oculto na psique do artista ou ainda produtos de conteúdos coletivos que se manifestou no artista. Após essa transformação é possível fazer uma leitura, pelo próprio artista ou por outras pessoas, geralmente cada pessoa poderá fazer sua própria leitura. Acredito que mesmo que haja um tema ou uma proposta já definida, sempre o resultado da materialização terá uma dose de surpresa.


Geralmente artistas já nascem artistas, não é mesmo? Desde pequenos já começam a apresentar mais intimidade com atividades artísticas. Entretanto, as vezes também é comum acontecer um momento específico no qual o artista se reconhece artista e não consegue se imaginar fazendo outra coisa que não seja arte. Como e quando a Arte entrou em sua vida?


A arte entrou na minha vida quando eu estava passando por uma dificuldade relacionada a saúde, nesse período eu fazia peças funcionais em madeira, como vasos e objetos de decoração. Em certo momento senti uma vontade incontrolável de fazer algo mais subjetivo, que não tivesse uma função específica. Foi então que comecei a tentar materializar o que eu estava sentindo em conjunto com algumas percepções de como eu via o mundo e a sociedade em que vivemos.

Por que escolheu a escultura como forma de se expressar? Fale um pouco sobre seus mestres, suas influências e inspirações.


Até o momento vejo a escultura como o melhor caminho para o que pretendo mostrar, contudo ultimamente tenho pensado na fotografia também. Além disso, escolhi a escultura devido ao fato de que desde criança eu estava ao redor de madeiras, pois meu avô e dois tios eram carpinteiros e marceneiros. Já os elementos de máquinas e outros metais são materiais com os quais tive contato no trabalho como engenheiro.

Busco inspirações nas curvas e texturas nos trabalhos de Abelardo da Hora, como Nega Fulo e Menino de Mocambo, nos aspectos sombrios e depressivos de Alberto Giacometti e também nas deformações naturais nas obras em madeira de Christian Burchard.


Nos conte um pouco sobre o seu processo de criação, como ele ocorre e como você lida com ele.


Inicio o processo com o material que tenho disponível, geralmente utilizo madeira de árvores derrubadas pela chuva ou cortadas de devido a infestação de insetos e materiais metálicos, como engrenagens, parafusos, rolamentos e eixos. Depois imagino como esses materiais podem juntar-se e formar uma composição, observo as tonalidades, texturas, pesos e sua relação com o espaço. Antes, fazia um esboço no papel, hoje já não faço mais, imagino a escultura pronta e sigo para a produção, sempre há uma certa transformação do que havia imaginado em relação ao produto final, observo o que era e o que passou a ser, a diferença pode ter relação com a parte técnica, seja a fixação dos componentes ou alguma adequação na harmonia de cores ou textura. Para a fixação dos componentes, utilizo diferentes tipos de colas, cordão de algodão, porcas e parafusos.

Em que consiste o seu trabalho artístico hoje?

Em meu trabalho proponho uma observação sobre a aplicação de materiais e seu descarte somente diante uma real necessidade, que era o caso no uso de elementos de máquinas, em oposição ao consumismo midiático e massivo de outros materiais, com predominância de produtos eletrônicos. Hoje observo um interesse no impacto do tempo nos materiais, que formam suas superfícies, texturas e cores, como a oxidação do ferro e as trincas da madeira. Também passo a imaginar como foi seu uso, a quem pertenceu, como foi usado e a influência do meio ambiente.

As escolhas temáticas são baseadas em acontecimentos e experiências que ocorreram ao meu redor e que me impactaram de forma direta ou não. O ato da materialização de algo que nos afeta é difícil e trabalhoso, por vezes doloroso e ao mesmo tempo prazeroso.

Digo afetar no sentido de afeto, quando faz transbordar nossos sentimentos, sensibilidades e emoções de tal forma que dificilmente controlamos, uma vez que são oriundas de algo estranhos a nós. Porque não dizer, talvez oriundas de outros Eus em nós. Assim como um verdadeiro paradoxo inicia-se na dor e termina-se no prazer.

Cada obra possui sua individualidade, seu momento, sua história e sua afetividade, porém no final estão conectadas por algo que não sei nomear, mas sei o que é.


Como foi seu caminho para chegar até aqui? Quais foram ou ainda são seus grandes desafios para trabalhar e viver da Arte?


Minha trajetória como artista é bem curta, são apenas três anos, nesse período produzi o máximo que pude, com objetivo de pesquisa para entender melhor meu caminho artístico, também participei de concursos e exposições coletivas além de aperfeiçoamento teórico. Observei como desafio, a procura de uma forma de adequar a obra ao mercado, identificar se o que desejo produzir é o que o público deseja comprar.


Hoje em dia, já com alguma experiência de vida e experiência enquanto artista, quais você diria que são as características ou atributos mais importantes para se abraçar uma carreira em Artes?


Acredito que uma característica importante em um artista é a curiosidade, como por exemplo experimentar novos materiais, pesquisar a relação entre eles, seu comportamento quanto ao calor ou frio. Também vejo que é de extrema importância que um artista possua algum conhecimento sobre saberes empresariais, como marketing, vendas, contabilidade e custos. Ainda, o que pode ser a parte mais difícil, deixar um pouco o atelier e se dedicar para entender como funcionam as mídias socias e outros recursos na internet.


Que conselho ou conselhos que você daria para alguém que está apenas começando a dar os primeiros passos no mundo das Artes?


Diria que produzir o máximo que puder é uma dica importante, pois no início não se sabe muito bem nem onde está nem onde quer chegar, talvez apenas achamos que sabemos, nesse estágio de produção massiva além da experimentação de materiais, que acredito ser uma fase instransponível, também haverá uma evolução do processo artístico e conhecimento das capacidades tanto técnicas quanto artísticas. A capacidade artística que me refiro aqui remete ao diálogo poético entre o artista e o público.


Onde mais você quer chegar? Nos conte um pouco mais sobre seus projetos, seus planos ou mesmo sonhos


Penso em focar como pesquisa a influência do tempo nos materiais tanto no metal quanto na madeira e construir esculturas a partir desse tema, continuar participando de exposições e concorrendo a editais. Trabalhar para que minhas obras sejam minha marca e assim poder atingir o público com minha mensagem, como sonho gostaria de expor individualmente.



Conheça mais o trabalho do artista visitando o site da DOMI Galeria de Arte Online


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